Fragmentos Descritivos

FRAGMENTOS DESCRITIVOS



      Não é preciso atrair o desejo, Ele está em quem o desperta ou não existe. Ele já está ali desde o primeiro olhar ou jamais terá existido. Ele é o entendimento imediato da relação de sexualidade ou não é nada.
      Apenas Hélène Lagonelle escapava à lei do erro. Demorava-se na infância. P. 20



     Estou extenuada pela beleza do corpo de Hélène Lagonelle  deitado junto a mim. Esse corpo é sublime, livre sob o vestido, ao alcance da mão. Os seios, nunca vi nada igual. Nunca toquei neles. Ela, Hélène Lagonelle, é impudica, ela não se dá conta, passeia nua pelos dormitórios. O que há de mais belo entre todas as coisas criadas por Deus é esse corpo de Hélène Lagonelle, incomparável, esse equilíbrio entre a estatura e o modo como o corpo sustenta os seios, à frente dele, como coisas separadas. Não existe nada mais extraordinário do que esse arredondamento visível dos seios salientes, essa exterioridade ao alcance das mãos. P. 53



      Os corpos dos homens têm formas avaras, interiorizadas. E elas não decaem como as de Hélène Lagonelle, estas nunca duram, no máximo talvez um verão só, e só. Ela, Hélène Lagonelle, vem dos planaltos de Dalat. P.53-54



      Hélène L. não sabe que é bellísima. P.54


    Ela, Hélène Lagonelle, não sabe ainda o que eu sei. E no entanto tem dezessete anos. É como se eu adivinhasse, ela jamais vai saber o que eu sei.

O corpo de Hélène Lagonelle é pesado, ainda inocente, sua pele é tão suave, como a de alguns frutos, que quase passa despercebida, um pouco ilusória, excessiva. Hélène Lagonelle, dá vontade de matá-la, ela faz despertar o sonho maravilhoso de matá-la com as próprias mãos. Essas formas de farinha finíssima, ela porta sem saber, mostra essas coisas para mãos que querem apertá-las, para a boca que quer comê-las, sem retê-las, sem ter conhecimento delas, sem ter conhecimento de seu fabuloso poder. Eu queria comer os seios de Hélène Lagonelle. (...) Ser devorada com esses seios de finíssima farinha que são os dela.  P. 54-55



      Estou extenuada de desejo por Hélène Lagonelle. Estou extenuada de desejo. P. 55


          
         Quero te levar comigo, Hélène Lagonelle, lá onde toda a noite, os olhos fechados, faço que me dêem o gozo que faz gritar. Queria dar Hélène Lagonelle a esse homem que faz isso em mim para que ele faça nela. Isso na minha presença, que ela o faça segundo meu desejo, que ela se dê onde eu meu dou. Seria pelo desvio do corpo de Hélène Lagonelle, pela transversal de seu corpo que viria o gozo que ele me dá, agora definitivo.
De morrer.

        Para mim, ela tem a mesma carne desse homem de Cholen, mas num presente irradiante, solar, inocente, numa eclosão repetida de si mesma, a cada gesto, a cada lágrima, a cada uma de suas falhas, a cada uma de suas ignorâncias. Hélène Lagonelle, ela é a mulher desse artesão que me torna o gozo tão abstrato, tão duro, esse homem obscuro de Cholen, da China. Hélène Lagonelle é da China.
P. 53-55